Resgatando Tradições - A Hora da Ave Maria

 Recentemente, enquanto voltava do trabalho, já cansado das músicas do meu pendrive, sintonizei em uma estação de rádio qualquer, na esperança de encontrar alguma novidade para adicionar à lista das músicas que gosto e repetir pelo resto da vida.  Acabei me deparando com “a hora da Ave Maria”. Como católico praticante, é claro que deixei o rádio do carro naquela estação e ouvi até o final algumas palavras de fé e, logo após, a oração da Ave Maria.  Na hora, me veio à lembrança a minha avó materna, que, mesmo na casa dos seus 90 anos, ligava o seu radinho de pilha religiosamente todos os dias e ouvia a mesma rádio que, por acaso, eu havia acabado de sintonizar. 

Isso me fez recordar do seu exemplo, mas também de uma tradição muito presente nas famílias católicas do século passado, que paravam tudo o que estavam fazendo ao meio-dia, para rezar uma Ave Maria e repetiam-na às seis horas da tarde, como forma de agradecimento a Deus pelo dia, nestes dois momentos. O mundo continuava lá fora. As tarefas continuavam esperando. Mas naquele instante havia uma pausa. Havia Deus.


É interessante perceber que, na medida em que a vida foi evoluindo e ficando mais cômoda, algumas tradições foram se perdendo. Talvez seja difícil explicar para uma geração acostumada à velocidade e à busca por produtividade o significado de uma pausa diária. Mas muitas famílias do passado tinham esses pequenos momentos que organizavam a vida. Hoje, mesmo com recursos que deveriam nos proporcionar mais tempo livre, muitas vezes acontece o contrário: o tempo parece sempre insuficiente. Talvez porque a tecnologia tenha resolvido muitas tarefas, mas também tenha criado novas formas de ocupar o tempo. Máquinas lavam roupas, aparelhos aquecem comida, aplicativos resolvem problemas em segundos. A promessa era simples: menos tempo gasto com tarefas, mais tempo para viver. Mas, de alguma forma, conseguimos transformar até o tempo livre em mais uma coisa a mais para administrar. Frequentemente, eu mesmo preciso reorganizar meus horários para garantir um momento de silêncio e oração. Caso contrário, até aquilo que é essencial acaba sendo deixado para depois.

Desde então, tenho buscado rezar não apenas ao meio-dia, como já fazia há alguns anos, mas também recuperar esse momento às dezoito horas. A experiência tem sido gratificante. Até mesmo minha ansiedade diminuiu.

Existe algo profundamente especial em atravessar um dia cheio e, quando o relógio marca meio-dia, fazer uma pausa. Antes do almoço, uma Ave Maria. Uma breve conversa com Deus. Às seis da tarde, quando a poeira do dia começa a baixar, novamente uma pausa. Um momento de gratidão. Um instante de contemplação.

E talvez seja justamente isso que tantas vezes nos falta: parar.


Certas tradições poderiam ser resgatadas. Mas o resgate delas não acontece apenas pela admiração do passado. É preciso vivê-las novamente, colocá-las em prática e transmiti-las.

Nenhum médico irá receitar o Ângelus ou uma Ave Maria como primeiro caminho para combater uma inquietação interior. Mas talvez existam remédios que não encontramos nas tantas farmácias espalhadas pelas cidades. Às vezes, uma rotina com Deus também pode ser remédio.

Talvez, estas duas pausas no dia seja um dos tantos segredos que ajudam a explicar por que muitos antigos, mesmo com recursos escassos, pareciam viver com uma felicidade que hoje buscamos encontrar em tantos lugares. Uma vida centrada em Deus, vivida no momento presente, mesmo com muitos filhos, muitas dificuldades e poucas das facilidades que hoje consideramos indispensáveis.


Jean-François Millet. O Angelus (1857–1859). Óleo sobre tela, 55 × 66 cm. Museu de Orsay, Paris.

Jean-François Millet. O Angelus (1857–1859). Óleo sobre tela, 55 × 66 cm. Museu de Orsay, Paris.


*A "hora da Ave Maria" refere-se tradicionalmente às 18h, o momento em que os sinos das igrejas católicas dobram para lembrar os fiéis de pararem suas atividades e rezarem a oração da Ave-Maria ou o Ângelus, em devoção à Virgem Maria e à Encarnação de Jesus